Reflex[ão]o


Amigos, hoje é o meu primeiro dia.
Neste momento estou a recordar o dia de ontem. Foi tudo muito rápido e estranho, para vocês foi tudo muito rápido e estranho, mas para mim foi tudo muito lento e agoniante.
Foi a minha escolha… respeitem-na.
No camarote VIP eu assistia a tudo, e vocês… e vocês… (as lágrimas caem)!
Primeiro foi a noticia inesperada a cair rápida e fulminante como um raio.
Temos sempre o amanhã como garantido, adiamos sempre tudo para amanhã, mas o amanhã pode ser o vazio, a falta de mim, um buraco no infinito, o desespero de querer dizer o ontem, a ânsia de querer partilhar, a busca de mim… que já não existo, parti!
Sim, recordo o dia de ontem, o dia em que pela primeira vez consegui reunir todos os meus amigos! O dia em que consegui reunir todos os meus amigos, o dia em que os meus amigos conheceram os meus amigos.
Foi o dia em que o longe se fez perto, em que o tempo parou e houve tempo para tudo, nada se adiou, o amanhã já não existia (pelo menos para mim) e foi o dia em que não foi necessário marcar data prévia para o reencontro á muito esperado, foi também o dia em que ninguém disse “hoje não tenho tempo, fica para amanhã”, porque pura e simplesmente o amanhã já não existia (pelo menos para mim)!
Recordo o dia de ontem. O dia em que vocês olhavam para o que outrora tinha sido eu, agora estendido de mãos cruzadas sobre o peito.
Sim amigos… parti, assim como vocês partirão também um dia, o dia em que não vão ter que adiar mais nada, o dia em que o presente será o infinito…
Eu fiz uma escolha, escolhi o meu dia…
Amigos, olhai para vocês… estão a ver-me?

Como um espelho… reflecte a imagem…

Saudade

Água a cair numa cascata,
O som das campainhas do gado,
Pássaros voando e cantando...
Momentos que no peito vou guardando.
Montanhas,
O Céu azul,
Algumas nuvens ao longe
Vão rumo ao Sul.
O frio,
O calor de uma lareira
Que acesa aquece
O peito de uma feiticeira.
O verde dos campos,
Gado pastando,
O fumo que sai pelas chaminés
Que pela vida vão fumegando.
Saudade,
Abrir os olhos,
Ver e sentir
Lágrimas nos olhos.
Saudade...

Era Feliz




Era criança e corria sob o azul do Céu. Era criança e era feliz. Era feliz porque sendo criança tinha o direito a ser feliz. Saía de casa com destino a parte incerta e brincava, saltava, caía, fugia... e voltava a casa! Corria pelos caminhos de terra, tropeçava nas pedras e eu corria pelos caminhos de terra. Muitas vezes na companhia da solidão eu não estava sozinho, eu não estava sozinho, mas estava só. Estava só, com os meus pensamentos e brincadeiras inocentes. Todos os dias eu regressava a casa cansado de tanto ter vivido! Conhecia todos os caminhos da pequena aldeia como as palmas das minhas mãos, caminhos em formas de linhas, como as palmas das minhas mãos, linhas da vida, do amor, da saúde, como as palmas das minhas mãos, caminhos que agarravam a felicidade e o desconhecido, como as palmas das minhas mãos. Era criança e brincava, era criança e vivia, era criança e tinha problemas em não ter problemas, era criança e era feliz, porque sendo criança tinha o direito a ser feliz.

Leveza

Imponente ao passar dos anos
De muralhas sólidas edificado.
Caminhando em curtos passos
Entramos pelos arcos petrificados.

Do alto das torres nada se via
Devido ao cerrado nevoeiro
Que a magnânima paisagem cobria.
Respirava e sentia memórias de guerreiro...

Na muralha do jardim
Momento mítico se presenciou,
Senti enorme pequenez dentro de mim.

O vento namorava a névoa.
Pensei: “D. Sebastião voltou!”.
Sentimento de leveza... como quem voa!

Velho Guerreiro

Sentado no corrimão da vida
Ele vê ténues fronteiras,
Uma esperança perdida,
Demónios saltando fogueiras.

Pensando na juventude fugida,
Um velho recorda as suas brincadeiras.
Sonha agora com a partida
Acompanhado por donzelas guerreiras.

Tem o sangue como bebida
Aquecido em grandes lareiras,
Tem já a sua sentida lida.

Não foge... sente tonteiras...
Uma calma desmedida...
São as suas memórias derradeiras.

Loucura

As paredes do quarto,
Uma porta aberta,
Uma cama desfeita,
A saudade que aperta.
Uma vela que arde
Como o rastilho da vida,
Um coração aberto
Que impede a partida.
O passado que volta
A fazer parte do presente,
O corpo na cama...
O espírito ausente!
A janela fechada,
A noite escura,
O vento que chama
Companhia para a loucura.
Um corredor deserto,
A solidão sentida,
Os braços abertos,
Uma tristeza contida!
As lágrimas na face,
O grito da loucura,
A fúria da revolta,
A doença sem cura.
Momentos da vida
Sentidos na pele,
Espinhos na alma
Com sabor a fel!

O Fim...o Recomeço...

Sonhar

Sonhar!
Há quem diga que não faz mal.
Será?!
Passar a vida a sonhar é estar ausente
De um presente que não volta.

Mas... e se a própria vida é um sonho?!

Nesse caso, sonhar será viver o presente
De tal forma intensamente
Que quem está acordado não pode imaginar!

Os Teus Olhos


Os teus olhos que me seguem
Que me acompanham onde estou,
Os teus olhos que me prendem
Ao resto do que sou.

Os teus olhos que me sentem
Na distância desmedida,
Os teus olhos que não mentem
A esperança perdida.

Os teus olhos que eu fiz chorar
Nas noites de solidão,
Os teus olhos que de esperar
Foram tapados pela mão.

Os teus olhos que se cansaram
De por mim tanto sofrer,
Os teus olhos que me amaram
E que eu vim a perder.

Os teus olhos amados
Não são o que eram,
Os teus olhos de cansados
Por mim já não esperam.