Aviso

Por motivos de força maior este espaço irá ficar "congelado" por tempo indeterminado.

Quero agradecer a todos aqueles que me têm apoiado com as suas palavras e que visitam este espaço regularmente.

Um muito obrigado a todos e... até um dia!

Humberto Morais

Manuel

Manuel tem 9 anos, não tem Pai nem Mãe, ou melhor, tem Pai e Mãe, mas pode-se afirmar que não os tem.
Pior do que não ter Pai e Mãe é ter Pai e Mãe mas ser abandonado por eles.
É esse o caso do Manuel!
Manuel não vai à escola nem brinca como as outras crianças da sua idade, tem outras preocupações… aprender a Sobreviver.
Um carro velho abandonado e sem portas é já á alguns meses a casa do Manuel, é lá que ele guarda religiosamente todos os seus tesouros.
O Manuel tem poucos tesouros, os que se lhe conhecem são um porta-chaves de plástico com o emblema de um clube de futebol, uma saca com uma dúzia de berlindes partidos, uma lata vazia de um refrigerante que o Manuel nunca provou, uma revista incompleta de banda desenhada, algumas caricas velhas e o seu maior tesouro, um velho canivete com que corta os pedaços de pão duro que por vezes encontra no lixo.
Teve também um gatinho que o acompanhava diariamente, o mesmo gatinho que foi responsável pelo dia mais triste da curta vida do Manuel, o dia em que um grupo de rapazes decidiu afogar o gato acreditando que ele possuía 7 vidas (talvez já tivesse gasto as suas!!!).
Desde então os dias do Manuel são passados numa grande solidão.
Aproxima-se um dos dias em que o Manuel sente mais a solidão e a falta de um Lar, o Natal!
Hoje Manuel acordou cedo, a dor de barriga provocada pela falta de alimento, juntamente com o frio que fez durante a noite, não o deixaram ficar mais tempo deitado no banco traseiro do seu carro-casa.
Levantou-se, bebeu um copo de água para enganar o seu pequeno estômago e pôs-se a caminhar pelas ruas da cidade cheia de gente, a mesma gente que ignora a vida do Manuel.
A cidade está bonita, Manuel acha graça ás luzes e enfeites de Natal que se vê por toda a cidade.
As crianças da sua idade acompanham os pais na compra das últimas prendas de Natal, há sempre algumas que deixam tudo para a última hora, há sempre mais uma prenda para comprar para alguém que aparece de repente!
Manuel já decidiu qual a prenda que vai dar a si próprio, no dia de Natal vai comer aquele rebuçado que guarda no bolso á quase 15 dias, sempre vai ser uma noite diferente, vai poder comer alguma coisa doce!
Manuel continua a caminhada que o leva até ao local onde fez um funeral digno ao seu gatinho, ainda lhe custa recordar esse dia, em que pegou no gatinho a escorrer água e o secou com todo o cuidado á sua velha camisola para o enterrar mais quentinho, tinha sido o seu único verdadeiro amigo, aquele que o acompanhava para todo o lado e que nunca o tinha descriminado… que saudades sentia o Manuel!
Chegado agora ao local onde se encontra o seu amigo, Manuel corta uma pequena flor e coloca-a sobre um pequeno monte de terra saliente, é a prenda de Natal para o seu amigo.
Regressa agora pelas mesmas ruas, caminha apenas por caminhar, não tem pressa para chegar a lugar nenhum, ninguém o espera, por isso não vai chegar atrasado.
Depois de várias horas a caminhar já o dia se encontra a meio e Manuel ainda não comeu nada, observa neste momento uma criança sentada num café a comer uma fatia de bolo e isso recorda-lhe a dor de barriga que reclama por algo quente.
Manuel afasta-se do local e caminha várias horas sem rumo até que a noite surge. Resolve ir para o seu carro-casa e não aguentando mais esperar pelo Natal, decide abrir hoje a sua prenda e comer o rebuçado, a única coisa que o seu estômago iria sentir para além de um copo de água.E é com o doce sabor a morango que Manuel adormece numa fria noite de Dezembro, a noite que os termómetros registam como a mais fria da última década… a noite em que o Manuel adormeceu abraçado aos seus tesouros para nunca mais acordar.

A Decisão

Lembro-me como se fosse hoje.
Noite fria de Inverno, na lareira ardia a primeira lenha da noite.
Eu em pé, com o rosto colado na vidraça a observar a escuridão do vazio que passava lá fora.
Fazia pouco tempo que tinha tomado a decisão mais arriscada da minha vida, ia ser o primeiro Natal sem ti!
Ouvia de forma ténue a música que passava na rádio, uma daquelas músicas que nos remetem para as cavernas interiores que transportamos e onde expomos toda a verdade que somos, ali, sem ninguém a observar, ali, somos nós sem qualquer reserva, apenas nós e o nosso reflexo!
Sentia um forte aperto no peito, uma sensação dificil de descrever, sentia-me livre e ao mesmo tempo prisioneiro (de uma decisão), irradiava felicidade sentindo-me triste... tudo porque tinha tomado a grande decisão.
Recordava-me de ti, sabia que estavas ali tão perto, mas tão longe de mim, já não fazias parte do meu Presente.
Sentia a tua Raiva, a tua Incompreensão, a vontade que tinhas de me confrontar com a Verdade... PORQUE, PORQUE???

Hoje visitei a caverna onde enterrei essa recordação, tive a coragem que me faltou toda a vida para escavar essa memória.
É pena que tenha passado tanto tempo, agora sou apenas um velho no fim da vida.
Mas não quero partir sem te dizer a palavra que há tantos anos me atormenta a Alma... DESCULPA!

Uma manhã de Outono

Acordo no vazio de ti.
Espera-me lá fora um dia cinzento de Outono.

Um dia a somar ao tempo usado.
Um dia a subtrair ao tempo a usar.

A chuva bate na vidraça,
Enquanto o vento embala as folhas em descidas vertiginosas.
Abro a porta, subo a gola do casaco…
Saio para a rua e abraço mais um dia.

Sinto que na partida continuas presente.

É tempo...

É tempo de acordar,
De viver a vida,
Agarrar a esperança
Há muito perdida.

É tempo de mudar,
Repensar prioridades,
Objectivos que traçamos
Sem pensar em vontades.

È tempo de lutar,
Nada é eterno.
Temos que acreditar
Que vai terminar este Inferno.

É tempo de acordar…
È tempo de mudar…
È tempo de lutar…

É tempo de termos tempo,
Neste tempo que por nós voa,
Sem nos dar tempo de falhar
O tempo que passou não perdoa.

Traição

O que faz uma pessoa mudar,
Mudar tão rápida e drasticamente?
Gostava de conhecer a tua mente
E poder em ti voltar a confiar.

Terás os teus motivos! Vais voltar?
Será que um dia serás realmente
O que tentas ser ardentemente?
Não sei, mas toma cuidado ao acordar.

Trair uma amizade é cruel.
Abre os olhos e vê onde caminhas.
A vida não esta escrita no papel.

Não te esqueças dos amigos que tinhas
Antes dessa mudança infiel.
Terás sempre duas mãos abertas… as minhas!

Rasgo

Entre estas quatro paredes
Procuro dentro de Alma
O porquê desta noite calma
E tento rasgar estas redes.

A força que tu me pedes
É a do poeta que declama,
Do amor de quem não ama,
E assim sabes que perdes.

Os sonhos ambicionados
Se não lutares por eles
Não são concretizados.

As garras que rasgam as peles
Dos corpos mutilados
São os sonhos deles.

Companheiro

Chegar.
Os primeiros dias de novidade…

O cimentar de uma amizade fulgurante
Que o tempo quebrou fisicamente.

A despedida com um até amanhã que não se concretizou.



Fazes falta…


++Dedicado ao J.V.
R.I.P. 10/08/2007
++

Um segundo

A porta de casa abriu-se, sinto o teu cheiro…
Deixo-me ficar a olhar pela janela,
E tenho a certeza que partiste.

Mulher de preto

Mulher de preto
De luto vestida,
Os teus olhos tristes
Lembram uma despedida.

Sentada a olhar o horizonte,
Perdida nos pensamentos.
As tuas rugas salientes
As marcas dos teus lamentos.

Na tua pele enrugada
A vida está marcada.

Mulher de preto
De olhos molhados.
As tuas lágrimas
São rios salgados.

Cada ruga do teu rosto
É uma recordação.
Escondes o que te vai na alma,
Mas não controlas o coração.

O teu olhar melancólico
Neste quadro bucólico.

Mulher de preto,
De mãos vazias.
Tens tão pouco
E tão pouco pedias.

As tuas mãos fechadas,
A tua alma aberta.
O tempo que por ti passa
E o choro que te aperta.

Olho para ti assim
E vejo o reflexo de mim…